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Democracia Shopping
por sharkinho
São poucos os que na Imprensa não enchem a boca com o revigorante estatuto de contra poder, uma aura enganosa que paira sobre o Jornalismo desde os saudosos tempos de Watergate.
Mas os tempos são outros, todos o sabemos, e quem manda agora nos escaparates são os colossos da Comunicação.
Por isso mesmo, o mito da isenção surge esmagado no horizonte por uma razão muito simples: os jornalistas também têm que pagar as suas contas…
Assisti enquanto consegui ao recente debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa, promovido pela SIC Notícias. E digo “enquanto consegui” porque entretanto fui ruminando a explicação tão singela que me ofereceram para a selecção daquelas sete pessoas de entre as doze que se candidatam de facto (e das quais duvido que alguém consiga recitar os nomes todos assim de repente).
A referida explicação assenta numa lógica televisiva e muito linear. Os sete eleitos, passe o trocadilho, eram precisamente aqueles que uma qualquer sondagem referia nessa condição potencial.
Vou tentar ser mais claro.
Os participantes num debate político daqueles que se diz interessarem à Democracia, levado a cabo por uma estação televisiva que junta a palavrita “Notícias” à sigla principal para a distinguir enquanto canal de informação, foram escolhidos com base numa sondagem.
Mais claro ainda.
Alguma Imprensa, que se sabe poderosa na influência do sentido de voto de boa parte do eleitorado, usa a Democracia como um pretexto sério para fazer as coisas a brincar (o que podemos chamar aos “votos” expressos num inquérito telefónico ou mesmo de rua?).
E eu confesso que esta forma de fazer as coisas me deixa apreensivo quando presto atenção aos noticiários e descubro a multiplicação de atracções fatais entre políticos e empresários e depois somo a relação estreita entre Imprensa e milionários.
O resultado final destas contas transportado para a realidade dos debates decididos por sondagens deixa pouco espaço de manobra para o mais bem intencionado benefício da dúvida.
Ficcionem comigo um nadinha.
Isto é um “supônhamos”, claro, mas imaginem que um candidato (que os há) daqueles capazes de tudo para se guindarem ao poleiro se via ali mesmo no limite entre o sétimo e o oitavo lugar das previsões dos infalíveis. E que por acaso até estava bem relacionado com um pato bravo de uma “Dragapartes” cheia de vontade de construir umas dispendiosas infra-estruturas.
Quanto valeria uma sondagem que catapultasse o dito candidato para o lugar de um outro que até podia ser uma pessoa séria mas que (e precisamente por isso) não alinhava em esquemas de treta?
Tudo isto, repito, no domínio da ficção. A gente não tem motivos para duvidar da integridade da classe política e ainda menos da ambição muito contida do poder financeiro.
Não é?
Sharkinho, Quinta, 21 de Junho de 2007 às 17:19
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Observador militante, Sharkinho interessa-se sobretudo por pessoas... tudo o resto são efeitos especiais.
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